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 islam
  30/04/2016
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Nenhuma rapariga rica foi raptada pelo Boko Haram
Nenhuma rapariga rica foi raptada pelo Boko Haram

"Nenhuma rapariga rica foi raptada pelo Boko Haram"

Joana Gorjão Henriques

30/04/2016 - 08:03

Aos 30 anos, Chika Oduah foi das poucas jornalistas mulheres a entrarem em território do grupo islamista radical. Cresceu na América mas mudou-se para a Nigéria em finais de 2012.

Em Abril de 2014, homens do grupo terrorista nigeriano Boko Haram entraram na pequena vila de Chibok, a nordeste do país, tomaram conta da escola secundária estatal fingindo que eram guardas e puseram 272 raparigas dentro de carrinhas.

Pouco depois, a jornalista Chika Oduah fez-se à estrada até uma das zonas mais perigosas da Nigéria, a província de Borno, junto à fronteira com o Chade " encontrou uma vila onde o acesso à Internet e a noção do que se passa no resto do mundo é muito remota. Mas, como descrevia na reportagem publicada em Maio desse ano no Guardian, "o rapto deixou a sua marca em toda a gente nesta localidade que tem vivido sob o estado de emergência desde que o Boko Haram a começou a atacar há um ano".

Nessa reportagem, a jornalista documentava a angústia dos habitantes. Um ano depois, em Junho, publicava outra reportagem no New York Times onde escrevia que mais de 200 raparigas ainda continuavam desaparecidas " no regresso a Chibok tinha, porém, visto mais soldados. Ainda hoje, das 272, apenas 57 raparigas conseguiram fugir: 219 continuam desaparecidas.

Chika Oduah falou com o PÚBLICO por telefone a partir da capital, Abuja, dias depois de 15 das raparigas raptadas terem aparecido num vídeo divulgado pela cadeia americana CNN. "O governo nigeriano não tem nenhuma informação e isso é muito infeliz porque estas raparigas desapareceram há dois anos", comenta.

Em Novembro de 2014, Chika Oduah recebeu o prémio de jornalista do ano da Trust Women, da fundação Thomson Reuters, em homenagem à reportagem que fez em Chibok. Com o seu trabalho, chamou a atenção para a violência do grupo terrorista associado ao auto-proclamado Estado Islâmico que não aparecia tão frequentemente nas notícias mas aterrorizava a Nigéria.

Hoje com 30 anos, continua a fazer jornalismo num país onde há muitas histórias para contar, do petróleo às artes, mas onde o Boko Haram se tornou no terror nacional.
Milhares de raptos

Nascida na Nigéria, Chika Oduah mudou-se para os Estados Unidos quando era um bebé. Em finais de 2012, decidiu regressar ao país onde nasceu com a ideia de fazer reportagens sobre aspectos culturais como o casamento precoce, a circuncisão, a viuvez. Tem publicado, desde então, em meios como a Al-Jazira, The Guardian, The Atlantic e New York Times.

Com a Al-Jazira foi a Maiduguri, a cidade-berço de Boko Haram (que significa "contra a educação ocidental") e alvo de vários ataques do grupo que quer impôr um estado islâmico no país. Encontrou gente disponível para ajudar, muitas pessoas tinham mesmo vontade de falar para que o resto do mundo soubesse o que estava a acontecer.

"Apesar do que se lê nos media, Maiduguri é uma cidade muito bonita, ligada a muitas outras cidades africanas e tem uma história longa de trocas comerciais com o mundo árabe, como Marrocos e Líbia. É uma pena que esteja a acontecer isto", diz.

Não desvalorizando a história do rapto das meninas em Chibok, a cerca de 130 quilómetros de Maiduguri, a jornalista lembra que já foram raptadas milhares de raparigas em outras cidades pelo Boko Haram. "Os media estão focados nessas 200 mas e as outras milhares?", questiona. "Muita gente em Maiduguri sente-se frustrada. A maioria das meninas de Chibok eram cristãs e é por isso que as pessoas acham que os media se centram tanto nelas. Mas houve milhares de mulheres raptadas antes e depois " a Amnistia Internacional fala entre dois e quatro mil. Por outro lado, é verdade que é bom que essas raparigas de Chibok tenham atenção porque servem de voz às outras. Podemos usar essa história para introduzir as histórias das outras."

Segundo as Nações Unidas, desde 2009 que 20 mil pessoas na Nigéria morreram e 2,5 milhões foram forçadas a sair de suas casas.
Norte e Sul

Ao longo deste anos no terreno, Chika Oduah percebeu que o peso da presença do Boko Haram na vida quotidiana do país depende da região. Há medo real, todos os dias, no Norte, uma enorme área com muitos muçulmanos, e no Nordeste, onde está concentrado o Boko Haram, conta. "Muitos pais não querem que as filhas fiquem na rua até tarde", descreve, "nem que vão ao mercado sozinhas porque há vários casos de raparigas raptadas" nessas circunstâncias.




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